Grupo Folclórico e Etnográfico "Ilha Morena" da Casa do Povo de São Mateus

Os “grupos folclóricos” nascem pela necessidade de transmitirem as tradições, a vida e a história dos povos.

Pertencemos a uma zona da Ilha, rica em tradições e com apetências pelos instrumentos de corda: bandolins, bandolas, violinos, violas e violões.

Da miscelânea entre a tradição dos povoadores e a arte que a “Ilha” cria, nasceu o nosso “Grupo Folclórico”.

Este “Grupo Folclórico” foi criado em 1984 e inscrito na Casa do Povo de São Mateus como Grupo Folclórico e Etnográfico a 20 de Setembro de 1987.

O Grupo é constituído por 35 elementos.

Cada par representa os usos e costumes da nossa gente.

Temos trajes de agricultores, vindimadores, apanhadores de figos, pastores, baleeiros, pescadores, romeiros, trajes domingueiros e o capote.

O homem agricultor usa calças riscadas de cotim escuro, com o cós de trás cortado em bico e preso por uma fivela, braguilha de botões e suspensórios também presos com botões. Usa camisa de linho xadrez em tons de azul claro, abotoada à frente e com um cós no pescoço. Usa também uma jaqueta de cotim riscado, aberta à frente e com gola no pescoço. Na cabeça usa um chapéu de palha amarrado com folhaça e nos pés albarcas e meias de lã de ovelha. As calças são presas no joelho com folhaças. Na algibeira usa torcida de tabaco e pedra.

A mulher agricultora usa saia vermelha de linho, estampada, rodada e pregueada no cós. Usa blusa branca de linho com trincha à frente de abotoar, ladeada de um folhinho com pontilha, seguindo-se entremeios de crochet alternados com preguinhas. No pescoço leva um cós com um folhinho e pontilha. À volta da cintura leva um folho com pontilha. Usa por baixo saiote de linho branco com renda na beira e uns calções até ao joelho também de linho branco com um folho a arrematar. Tem presa à cinta uma patrona de linho com um folho à volta. Na cabeça usa um lenço de linho escuro amarrado atrás do pescoço e nos pés usa meias de lã de ovelha e albarcas de pele.

O homem vindimador usa calças de cotim escuro, braguilha com botões e suspensórios. Usa camisa de linho aos quadrados, abotoada à frente e com um cós no pescoço. Na cabeça usa chapéu e nos pés albarcas e meias.

A mulher vindimadora usa saia de linho riscada de verde e cenoura, muito rodada com cós na cintura. Usa blusa branca de linho com trincha à frente ladeada de bordado, cós no pescoço com folho feito de bordado, mangas compridas com folho também de bordado, nas costas tem uma pala. Usa avental branco de linho com trinchas de bordado, nervuras, duas algibeiras em bico e um folho plissado na beira. Na cabeça usa lenço de merino e chapéu e nos pés albarcas e meias.

O homem apanhador de figos usa calças riscadas de cotim escuro, com o cós de trás cortado em bico e preso por uma fivela, braguilha de botões e suspensórios. Usa camisa de linho xadrez, abotoada à frente e com cós no pescoço. Na cabeça usa um chapéu de palha e nos pés albarcas e meias de lã de ovelha.

A mulher apanhadora de figos usa saia escura de linho riscado ao alto, muito rodada e com cós na cintura. Usa blusa escura de linho xadrez, aberta à frente abotoada com botões sendo acinturada com duas pregas atrás. Usa também saiote de linho branco com beira de pontilha e uns calções também de linho branco até ao joelho com folho e pontilha na beira. À cintura usa uma patrona com folho à volta. Na cabeça usa lenço cinzento de linho e um chapéu de abas muito largas e nos pés albarcas e meias de lã de ovelha.

O homem pastor usa calças de cotim escuro, braguilha de botões e suspensórios. Usa camisa de linho riseado, abotoada à frente e com cós no pescoço. Na cabeça usa um chapéu de palha amarrado com uma tira garrida e nos pés albarcas e meias. Nos tornozelos usa folhaça para puxar as calças para cima.

A mulher pastora usa saia de linho riscada, rodada e pregueada no cós. Usa blusa cor-de-vinho de popeline com cós no pescoço, aberta à frente com trincha arrematada com pontilha e calções até ao joelho terminados por um folho com pontilha. Na cabeça usa lenço de merino estampado e nos pés albarcas e meias.

O homem baleeiro usa calças de cotim claro, presas por suspensórios e braguilha com botões. Usa por baixo umas ceroulas de flanela ou linho voltadas por cima das calças e amarradas com cordões. Usa também camisa xadrez de lã vermelha e por cima uma froca grossa feita de lã de ovelha. Na cabeça usa chapéu de palha amarrado com uma folhaça e anda descalço.

A mulher pescadora usa saia de chita, estampada, rodada e pregueada no cós e na bainha leva uma pontilha de crochet. Usa blusa de popeline às florinhas, com trincha à frente de abotoar, ladeada de um folho com pontilha, com as costas cheias de pregas, pescoço de cós com folho e pontilha, mangas compridas com cós e folho com pontilha. Usa por baixo saiote branco de linho com renda na beira e uns calções também de linho branco até ao joelho com um folho e pontilha a arrematar. Usa também um avental de linho branco com entremeios ao alto de renda e na beira um folho plissado. Na cabeça usa um lenço de merino amarelo estampado e nos pés albarcas sem meias ou então descalça.

O homem de trajo fino usa fato preto de sarja de lã com calças de suspensórios, braguilha de botões, casaco abaixo do tronco e camisa branca de linho com bicos levantados e um laçarote de seda bege. Na cabeça usa chapéu de feltro preto e nos pés sapatos pretos finos feitos à mão.

A mulher de trajo fino usa fato bege de linho com jaqueta acinturada abotoada pela frente com muitos botões forrados de tecido castanho, com ramos bordados à mão nos dois lados, uma aba na cinta, mangas compridas largas em cima e apertadas no punho com vários botões forrados de castanho, pescoço com cós e uma saia rodada, franzida no cós também com uma barra toda bordada à mão em castanho. Usa na cabeça um chapéu em forma de toca do mesmo tecido do vestido debruado a castanho e preso ao pescoço com um laço de fita castanha. Nas mãos usa uma bolsa de veludo castanho. Nos pés usa umas botinas pretas.

Apresentamos utensílios picoenses usados antigamente e que estão relacionados com os bailhos que executamos tais como: foice, foicinho, luva de mondar, pique, enxada, balaio, antolhos, boqueira, canecas com mato, cordas, unta-figos, estaca, maçarocas em varas, banco de vigia de baleia, banco de osso de baleia e de tronco de árvores, torcida de casca de milho, candeia, arpão, lança, pá de remar, barça, pote, celha, gamote, balde do poço, binóculo, pau e corda de varar, cabaz de baleeiro, dente de baleia, bordão, bolsa de retalhos, cesta da merenda, corno, búzio, garrafas de empalhar, cabaça, açafate de rosquilhas.

Este Grupo também se dedica à pesquisa de bailhos, rodas, modas e cantigas muito antigas que só são recordadas por alguns velhotes espalhados por esta Ilha.

O nosso reportório é constituído pelos seguintes bailhos: Chamarrita, Pezinho, Mateus, Praia, Meu Bem, Tirana, Mané-Chiné, Bela Aurora, Eu Cá Sei, Fradinhos da Graça, Rema, Manjericão, Sapateia de Cadeia, As Vacas, Palmas, Meninas, Carinhosas, Padeirinha.

A Chamarrita  fecha a nossa actuação. Quando uma viola é dedilhada transformam-se os rostos, vibram as almas. É a Chamarrita... que todo o Picaroto sabe bailar.

O Pezinho é um bailho de roda e fala-nos de monda, picões e silvado.

O nosso povo tinha, por vezes, momentos de ironia e mordacidade... Na boa tradição portuguesa. Nas salas de folga subiam as cantigas com arremedos de crítica e alusões revisteiras. O bailho Mateus, é normalmente conhecido por Matias Leal. É bem natural que esta personagem tenha existido.

O folclore picoense, como o de todas as ilhas que formam este rincão açórico, sofreu forte influência do mar que nos rodeia. O bailho de roda Praia, fala-nos do mar e da pesca. Os nossos portos velhinhos eram autênticos santuários. Normalmente, junto a eles, havia os poços de maré longe dos centros populacionais.

A melodia do bailho Meu Bem, recolhida no Cancioneiro de César Neves, é de uma simplicidade encantadora. Muitas vezes os bailhos antigos eram cantados por todos nas repetições dos versos, o que lhe aumentava a graciosidade. Adaptámos-lhe uma coreografia que é feita a gosto do mandador. É também uma das nossas melhores melodias assobiada à mistura com uns piropos nos arraiais do Espírito Santo.

Uma das mais belas melodias do folclore picoense. Tirana que vai pelo mar fora!... Pelo mar fora, foram e vão os nossos sonhos...como sina...como destino!... Sonho ligado à aventura e arte de bem balear, pois esta é “Ilha de Baleeiros”.

No folclore picoense, para além dos bailhos de roda, há rodas e modas, muitas delas trazidas por estranhos que aportavam às nossas ilhas. O Mané-Chiné é uma moda musicada por muita gente e adaptada, na coreografia, por este grupo folclórico.

A Bela Aurora deve ter sido uma personagem célebre. O seu nome e o mistério que envolve a sua vida deram azo a este bailho de roda. A versão picoense foi uma recolha feita por Júlio de Andrade que a ouviu de uma velhinha das Ribeiras. É um bailho triste e dolente que nos fala de ausência, solidão e arvoredo.

Eu Cá Sei é um dos bailhos de roda característicos da Ilha do Pico. Tem um ritmo que se identifica com a nossa maneira de ser. Fala de amor...De amores cada um sabe dos seus!... Levar o jantar às terras era missão das meninas prendadas que, furtivamente, se encontravam com o seu amor. Eu cá sei e tu lá sabes...

As salas de folga foram sempre palco de crítica social, crítica de costumes e pessoas. Era o único escape... Até os Fradinhos da Graça que bebiam bem pela cabaça!... não escaparam! Cabaça que serviu para levar água aos campos e vinho nas romarias, para matar a sede e alegrar.

Podemos dizer que a vida dos picarotos foi feita a remar. Nós, que rezamos o mar nosso de cada dia, encontrámos no remo o sonho, a aventura e o sustento. A água da barça mitigava a sede quando de sol a sol a ordem era remar. O Rema é um bailho de roda já conhecido no século XVIII dos marinheiros e povos ribeirinhos da nossa Ilha.

O Manjericão é uma bailho de roda com poucos movimentos mas muito alegre e ritmado. O manjericão da serra aromatizou a vida difícil de quem lutou nas ladeiras íngremes, para desbravar, para semear, para colher! O búzio que também servia para chamada dos moinhos de vento, ecoava nas encostas como sinal de vida. Nas paragens, um gole de água caído de um corno, assim molhava as gargantas sequiosas.

Cada ilha tem o seu Sapateia. No Pico o Sapateia de Cadeia é a fina flor dos bailhos de roda. Em qualquer sala de folga o remate era sempre um Sapateia bem bailado... com cautela... Os frequentadores da sala de folga tinham orgulho em saber bailar o Sapateia, muitas vezes, à luz das lanternas bruxuleando em azeite de baleia. Eram folgas animadas, às vezes, até ao romper da aurora.

A actuação deste Grupo é feita em 4 quadros diferentes: Campo, Mar, Romaria e Folga.

O “Apresentador do Grupo” relembra a história dos nossos antepassados referente a cada tema. Ao mesmo tempo elementos do Grupo deslocam-se à frente com utensílios relacionados com o tema tratado mimando devidamente a referida cena. De imediato os bailhadores executam bailhos relacionados com o tema.

Com a explicação e encenação os bailhos são melhor compreendidos pela assistência.

É de realçar a colaboração de alguns responsáveis do Grupo como monitores de Cursos para “Animadores Culturais na área do Folclore”, organizados anualmente pelo Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas.

Além das várias actuações que faz ao redor da Ilha do Pico abrilhantando as festas, mostrando-se aos turistas e exibindo-se para individualidades responsáveis, também este Grupo tem feito várias deslocações para as outras Ilhas dos Açores, Portugal Continental, Canadá, Brasil e Espanha (Tenerife).

Todas as nossas actuações, inserem-se num conjunto de iniciativas que visam a promoção do folclore, da nossa freguesia, Ilha, Região e sobretudo o intercâmbio Sociocultural.

O Grupo Folclórico e Etnográfico “Ilha Morena” da Casa do Povo de São Mateus, transporta uma mensagem genuína do folclore picoense e a etnografia bem seleccionada e apurada permite conhecer a Ilha na sua dimensão física, social e cultural.

O Grupo Folclórico e Etnográfico “Ilha Morena”, baila, toca e canta a Cultura de um Povo!

 

CONTATOS:

Responsável: Mário Silva

Telefone/Fax: 292 699 129 (Casa do Povo)

E-mail: ilhamorena@sapo.pt

Rua D. Arquimínio Rodrigues da Costa, n.º 6

9950-532 São Mateus MAD